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INTRODUÇÃO

Na psicanálise, a angústia resultante da repressão social que impede o indivíduo de realizar o que gostaria de ser é entendida como um conflito psíquico entre o desejo do Eu e as exigências impostas, que gera sofrimento e tensão interna. Essa aflição surge quando o indivíduo se vê forçado a reprimir seus impulsos e desejos genuínos para se conformar com as normas sociais, resultando numa sensação de ameaça e perda de controle que o Eu não consegue evitar ou controlar.

A angústia pode ter origem num conflito entre a realidade externa (as exigências sociais) e o mundo interno do indivíduo.

O indivíduo deseja ser algo que está em conflito com os valores ou expectativas da sociedade. Para se adaptar, é obrigado a reprimir seus desejos, o que gera um conflito entre o que ele é e o que ele é forçado a ser.

O Eu (ou ego), parte da personalidade responsável pela tomada de decisões e pela adaptação à realidade, é confrontado com essa exigência. A angústia surge como um sinal de que o Eu não consegue lidar com essa situação sem um processo de defesa.

O indivíduo sente que está em perigo, que não pode controlar a ameaça que é a pressão para se conformar com as expectativas sociais.  A angústia, nesse contexto, não é o desejo não atendido em si, mas a manifestação do conflito e da ameaça que o indivíduo sente no mundo externo.

Para lidar com essa angústia, o Eu pode usar mecanismos de defesa, como a inibição (bloqueio de desejos ou impulsos). Caso a repressão seja excessiva, ela pode levar ao desenvolvimento de sintomas neuróticos. A repressão social pode levar à perda da autenticidade e ao desenvolvimento de um sentimento de desconexão consigo mesmo, (o que poderíamos chamar de vazio existencial) uma vez que a pessoa age e pensa de forma contrária aos seus verdadeiros anseios. Essa tensão constante pode levar ao desenvolvimento de um mal-estar profundo e de uma sensação de inadequação, pois a pessoa se vê dividida entre o que deseja e o que a sociedade lhe impõe.

DESENVOLVIMENTO:

Para Freud, a angústia surge como uma reação de perigo face à perda de um objeto ou a uma situação de impotência perante o excesso de excitação, funcionando como um sinal. Lacan reformula o conceito, caracterizando a angústia como o afeto que não engana, um sinal da falta do suporte da falta, ou seja, a falta do próprio objeto a, que é o que faz o sujeito desejar.

Para Freud: A angústia é uma resposta a um perigo de perda (de um objeto de amor, por exemplo) ou a uma ameaça de ser sobrecarregado por uma excitação que o indivíduo não consegue controlar.

Funciona como um alerta, um sinal que antecipa um perigo, indicando a necessidade de proteção psíquica ou de alguma ação para evitar a experiência traumática.

Em algumas formulações, a angústia é vista como uma transformação de um impulso que, ao ser reprimido, não consegue ser satisfatoriamente elaborado psiquicamente.

Para Lacan: A angústia é um afeto genuíno que revela algo da verdade do sujeito, algo que a fala não consegue capturar, e que não se prende a um significante.

A angústia surge da falta do objeto a, ou seja, a falta daquilo que deveria garantir a plenitude do sujeito. É um sentimento de vazio e incerteza, uma percepção de que há uma falta essencial.

A angústia está ligada à busca incessante por esse objeto perdido e à impossibilidade de uma satisfação completa, sendo uma experiência intrínseca à condição humana.

A angústia é o que permite ao sujeito lidar com a falta fundamental que o constitui, e é a falta que impulsiona o desejo.

A sociedade entende a angústia como uma sensação profunda de mal-estar emocional e físico, caracterizada por um sentimento de insegurança, tristeza, vazio e sufoco, que pode paralisar o indivíduo e impactar suas atividades cotidianas. Geralmente associada a mudanças de humor e perda da paz interior, a angústia pode ser desencadeada por situações desafiadoras, perdas ou preocupações existenciais, e muitas vezes é vista como um sinal de que algo na vida precisa de mudança ou atenção.

A angústia é vista como uma junção de questões emocionais e físicas, que podem incluir dor, culpa, insegurança e tristeza, afetando a produtividade e a convivência social.

Muitas pessoas descrevem a angústia como uma sensação de aperto no peito, falta de ar, e uma paralisia que impede a realização de tarefas e a busca por soluções.

Um componente central da angústia é a sensação de desamparo, vazio e falta de propósito, levando a pessoa a sentir que tudo está perdido.

A angústia é frequentemente ligada a um medo generalizado e apreensão em relação ao futuro, transformando possíveis perigos em uma certeza paralisante.

Problemas no trabalho, decisões importantes ou rupturas em relacionamentos podem desencadear a angústia. Divórcios, a perda de um ente querido ou experiências traumáticas são fatores que podem gerar angústia. Dificuldades com a autoaceitação, o fracasso ou a falta de objetivos claros podem levar a um estado de angústia.

Embora incômoda, a angústia é frequentemente percebida como um sinal de que algo precisa ser mudado na vida de uma pessoa. Ela pode ser um catalisador para o autoconhecimento e para a busca de novos objetivos, incentivando a reflexão sobre a vida e a busca por uma existência mais autêntica.

CONCLUSÃO:

Segundo a psicanálise, a angústia existencial não “aumentou”, mas torna-se mais evidente e sentida em épocas de crise, pois o indivíduo se depara com a complexidade da sua existência, a falta de sentido e as incertezas do futuro, que o confrontam com sua liberdade, responsabilidade e finitude. Essa inquietação inerente à condição humana é exacerbada pela perda de propósito, pelo isolamento social e pela desconexão entre desejo e realidade, fazendo com que a angústia atue como um chamado para a autorreflexão, a busca por significado e a busca de um sentido para a vida.

Fatores que tornam a angústia existencial mais presente:

  1. Incerteza e falta de propósito:

A sensação de não ter um propósito ou a perda do mesmo leva à insegurança, à instabilidade e ao aumento da ansiedade e do estresse.

  1. Confronto com a realidade: O indivíduo é forçado a encarar as dificuldades da vida e o que está acontecendo à sua volta, sem poder evitar.
  2. Isolamento social: A dicotomia entre razão e emoção e o isolamento do indivíduo de seus semelhantes intensificam o surgimento da angústia.
  3. Busca por sentido: A angústia, nesse sentido, pode ser vista como uma força motriz que impulsiona o ser humano a buscar um sentido para a sua existência.
  4. A Fenômeno inerente à condição humana:

A psicanálise vê a angústia não como um mal-estar a ser eliminado, mas como uma resposta genuína às incertezas, limitações e confrontos existenciais.  A angústia se torna uma voz interior que ecoa as tensões entre desejos individuais e as demandas da realidade externa, impulsionando a autorreflexão e a autotranscedência. Diante da angústia, o indivíduo é solicitado a confrontar a realidade, em vez de fugir dela, para que possa seguir em frente, sendo assim, pode-se se dizer que a angústia é um fenômeno inerente a condição humana, necessário a evolução.

REFERÊNCIAS:

CORRÊA, F. R. (1999). Prefácio em ‘Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica – uma abordagem didática’ de D. Zimerman. Porto Alegre, Artmed.

JORGE, M.A.C. Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan – as bases conceituais. Vol.: 1. 6ª ed. Zahar: Rio de Janeiro, 2011.

Veja mais sobre “Mecanismos de Defesa” em:

https://brasilescola.uol.com.br/psicologia/mecanismos-defesa.htm

ZIMERMAN, D. E. Fundamentos Psicanalíticos: Teoria, técnica e clínica. Porto Alegre: Artmed, 1999.

 

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