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INTRODUÇÃO

O mito de Narciso conta a história de um jovem de beleza extraordinária que, orgulhoso e desdenhoso, rejeitava todos os que o desejavam, incluindo a ninfa Eco. Punido pela deusa Nêmesis, ele se apaixonou pela sua própria imagem refletida na água. Incapaz de alcançar o objeto de seu desejo, ele definhou à beira da fonte até a morte, transformando-se em uma flor. A história serve como uma lição sobre os perigos da vaidade excessiva e a importância da empatia.

De acordo com a pesquisa, David E. Zimerman escreveu um capítulo sobre a “posição narcisista” no seu livro Fundamentos Psicanalíticos. A obra completa abrange teoria, técnica e clínica, com uma abordagem didática.

Os principais aspectos do Capítulo 13, “A posição narcisista”, de David E. Zimerman, pode ser encontrada na descrição de um artigo publicado na Revista de Psicanálise da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA):

A posição narcisista é compreendida como um ponto crucial na formação e desenvolvimento do ser humano. É uma fase pré-edípica, marcada por uma indistinção entre o “eu” e o “outro”.

Nessa fase, a outra pessoa é percebida como alguém que existe para servir ao sujeito, sem a devida diferenciação entre o “eu” e o “outro”. A posição narcisista precede a posição esquizoparanoide, (essa posição é marcada pela não integração de sentimentos ambivalentes, levando a uma visão polarizada do mundo, em que as pessoas e objetos são vistos apenas como totalmente bons ou totalmente maus) e a relação com o objeto já está presente.

Ela se organiza como uma defesa contra as pulsões de ódio e inveja primária. Sua base não é a agressão, mas sim uma tentativa de assegurar a unidade simbiótica com a mãe. Clinicamente, manifesta-se através de fenômenos como hipocondria, vitimismo e arrogância. O sujeito adquire diferenciação e autonomia de forma gradual, mantendo uma dialética de funcionalidade com o outro. A rigidez da posição narcisista está ligada ao grau de fusão com o outro.

Indivíduos nessa posição têm dificuldade de enxergar o outro além de si mesmos, com uma libido voltada para si. Existe um estado de ilusão e negação das diferenças, com persistência de núcleos de simbiose e ambivalência. A lógica binária de “ser o melhor ou o pior” prevalece, com uma escala de valores centrada no ego ideal. Identificações defeituosas, a busca por objetos que reforcem a autoestima, comparações constantes e um contraego (uma parte da psique que age de forma antagônica ao ego) sabotador são características presentes.

 

DESENVOLVIMENTO:

O filme: “Beleza oculta” conta a história de Howard, personagem do Will Smith que entra em depressão após a morte de sua filha. Foram dois anos difíceis, Howard se afasta de agência e de seus amigos, não vê mais sentido na vida, nada mais tem importância, existe uma falta de iniciativa, está apático e imerso no vazio depressivo. Em meio a essa desconexão, a personagem de Howard começa a enviar carta para o AMOR, o TEMPO e a MORTE e os culpa pela morte de sua filha, a personagem se torna depressiva pela perda do seu objeto amado, (a filha). “A depressão na perspectiva psicanalítica freudiana é o resultado de um processo psíquico de natureza tópica, dinâmica e econômica, cujos elementos variam de conformidade com a estrutura psíquica a que o fenômeno depressivo pertence” Ehrenberg (1998). A frase descreve a depressão na psicanálise freudiana como um processo psíquico complexo envolvendo aspectos econômicos, tópicos e dinâmicos, cuja manifestação varia de acordo com a estrutura psíquica do indivíduo. Esses três pilares – econômico (investimento de libido), tópico (localização da representação psíquica) e dinâmico (interação entre as instâncias psíquicas) – explicam a complexidade e a individualidade de cada caso depressivo.

Na perspectiva da análise psicanalítica o filme Beleza Oculta foca no narcisismo como uma resposta ao luto e à melancolia, especialmente no personagem principal, Howard, que se isola em sua dor, investindo sua libido apenas em si mesmo após a perda da filha. O filme demonstra como o narcisismo pode se manifestar na busca por reconhecimento e na fixação em si mesmo, dificultando o processo de cura e a conexão com os outros, como ilustrado pelas experiências de luto e melancolia de Howard, Claire e Whit.

A fixação em sofrimento pode ser um ato narcisista, pois o indivíduo pode usar o sofrimento para se colocar no centro das atenções, buscar admiração e validação, ao mesmo tempo que evita lidar com a própria vulnerabilidade de forma profunda. Essa fixação pode manifestar-se como uma forma de “autoexposição” para receber atenção, desviar a responsabilidade de si para o outro, e manter um senso de identidade frágil, mas grandioso, que é constantemente validado pelas reações alheias.

O sofrimento como “suprimento narcisista”

Para o indivíduo com traços narcisistas, a fixação no sofrimento pode funcionar como uma forma de obter o chamado “suprimento narcisista”. Isso acontece porque a pessoa se sente especial justamente por ter superado — ou ter passado por — grandes dificuldades, o que a faz acreditar ser superior aos demais. A narrativa de “eu sofri muito” é usada para chamar a atenção: Ao focar incessantemente em suas dores, o narcisista garante que a atenção do ambiente esteja sempre voltada para si. Obter validação: A pessoa busca constantemente a pena, a empatia e a validação dos outros, reforçando a própria imagem de vítima. Manipular e controlar: Ao se colocar na posição de vítima, o narcisista pode culpar os outros pelos seus problemas e evitar a responsabilidade por suas próprias ações, criando um ciclo de controle por meio da culpa.

Essa dinâmica é especialmente comum no chamado narcisismo vulnerável (ou oculto). Diferente do narcisista grandioso, que se vangloria de sua superioridade, o narcisista vulnerável se apresenta como uma vítima, contando histórias de injustiças sofridas para ganhar a empatia e simpatia das pessoas.

A fixação em um sofrimento pode envolver os seguintes mecanismos:

Inversão de papéis: A pessoa distorce a realidade, invertendo os papéis para se posicionar como vítima, enquanto coloca o outro como vilão

Imunidade à responsabilização: A vitimização é uma tática que blinda o narcisista de ser responsabilizado por suas atitudes, já que os outros passam a se compadecer de sua suposta dor.

Construção de uma narrativa: A pessoa constrói uma história de sofrimento para si mesma, muitas vezes misturando meias-verdades com distorções para que a narrativa seja mais convincente.

 

CONCLUSÃO:

Na psicanálise, o narcisismo é um conceito fundamental que descreve um investimento libidinal no próprio “eu” (ego), crucial para o desenvolvimento da subjetividade. Quando esse investimento se torna patológico, caracteriza o Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN), que é um padrão de comportamento grandiosidade, necessidade de admiração excessiva e falta de empatia, geralmente com uma autoestima frágil por trás da fachada de superioridade.

É importante ressaltar que nem toda pessoa que sofre e expressa sua dor está agindo de forma narcisista. O contexto e a intenção por trás do comportamento são cruciais para diferenciar uma expressão legítima de sofrimento de uma manipulação narcisista.

O narcisismo é uma etapa natural do desenvolvimento psicossexual, onde a energia psíquica (libido) se volta para o próprio corpo e psiquismo da criança, que se vê como o centro do mundo. É uma fase necessária para a estruturação do “eu”, o vínculo com o mundo e o desenvolvimento da subjetividade. Na psicanálise, o narcisismo está ligado à busca por um “ideal de eu”, uma imagem de perfeição que o indivíduo persegue. O estado de narcisismo primário é comparado ao de um bebê cujas necessidades são imediatamente atendidas, com a energia sexual direcionada para si mesmo.

Já o Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN), caracteriza-se por um sentimento de superioridade, necessidade constante de ser admirado, e uma dificuldade em se colocar no lugar do outro. Por trás da arrogância, há uma autoestima instável e dependente da admiração alheia, tornando a pessoa extremamente sensível à crítica. A pessoa busca incessantemente reconhecimento por suas conquistas, talentos e beleza para validar o seu “eu”. As relações são marcadas pela exploração do outro e pela dificuldade em reconhecer as necessidades alheias, resultando em vínculos conturbados. É comum que o indivíduo com TPN não reconheça seu próprio comportamento como disfuncional, tendendo a culpar os outros por seus problemas.

Traços narcisistas são comportamentos pontuais e temporários, como a busca por validação ou autoconfiança exagerada, que podem ser até saudáveis em doses moderadas. O transtorno de personalidade narcisista (TPN) é uma condição clínica mais séria e crônica, caracterizada por um padrão persistente de grandiosidade, falta de empatia e necessidade de admiração que prejudica significativamente as relações e o funcionamento da pessoa. A diferença está no excesso, no exagero da necessidade de se engrandecer, reforçadas por traumas que o indivíduo traz consigo desde a infância, que poderíamos referir-nos a ferida do abandono por um dos genitores.

A psicanálise pode contribuir para o tratamento do transtorno narcisista ao explorar as raízes psicológicas do conflito, como a fixação em um narcisismo primário e a dificuldade em desenvolver a autoestima e os vínculos afetivos. O trabalho psicanalítico busca ajudar o indivíduo a entender seus padrões comportamentais, lidar com a vergonha e a insegurança por trás da grandiosidade, e desenvolver um ego mais coeso e a capacidade de se relacionar de forma mais genuína com os outros.

 

REFERÊNCIAS:

CORRÊA, F. R. (1999). Prefácio em ‘Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica – uma abordagem didática’ de D. Zimerman. Porto Alegre, Artmed.

EHRENBERG, A. (1998). La fatigue d’être soi – depression et société. Paris: Odile Jacob.

JORGE, M.A.C. Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan – as bases conceituais. Vol.: 1. 6ª ed. Zahar: Rio de Janeiro, 2011. Veja mais sobre “Mecanismos de Defesa” em:

https://brasilescola.uol.com.br/psicologia/mecanismos-defesa.htm

ZIMERMAN, D. E. Fundamentos Psicanalíticos: Teoria, técnica e clínica. Porto Alegre: Artmed, 1999.

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