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“[…] O seio bom é tomado para dentro e torna-se parte do ego, e o bebê, que antes estava dentro da mãe, tem agora a mãe dentro de si” (KLEIN, 1957/2006)

 “À medida que os filhos crescem, a mãe deve diminuir de tamanho. Mas a tendência da gente é continuar a ser enorme” (Clarice Lispector, 1968 [Jornal do Brasil])

 

INTRODUÇÃO

A teoria das relações objetais de Melanie Klein, conforme detalhada por David E. Zimerman, reformulou a psicanálise infantil ao postular que a psique se desenvolve através das relações com os objetos (pessoas e experiências) desde o nascimento. Essa perspectiva é aplicada na clínica com crianças, onde o brincar funciona como a principal via de expressão de seu mundo interno, permitindo ao analista interpretar as ansiedades e conflitos através dos jogos e brinquedos, especialmente na análise das posições esquizo-paranoide e depressiva.

A obra de Klein, comentada por Zimerman, enfatiza que o bebê passa por diferentes “posições”, que são configurações psíquicas dinâmicas e não apenas estágios fixos. Inicialmente, na posição esquizo-paranoide, a criança se relaciona com objetos parciais, como o seio, que pode ser visto como bom ou mau, experimentando ansiedade persecutória. Com o desenvolvimento, a criança transita para a posição depressiva, integrando as percepções de um único objeto (a mãe) que é capaz de ser fonte de amor e frustração simultaneamente.

A técnica do brincar se tornou central para a psicanálise infantil, pois o ato de brincar é a forma pela qual a criança elabora e expressa seus conflitos, fantasias e emoções de maneira simbólica. O brincar permite que o analista acesse o inconsciente infantil, interpretando os jogos como um meio de lidar com os conflitos internos, medos e as relações com as figuras significativas em sua vida. É através da interpretação do que acontece na brincadeira que a criança é guiada em seu processo de amadurecimento emocional, permitindo que as experiências sejam mais bem integradas ao seu ser.

 

DESENVOLVIMENTO:

A teoria das relações objetais de Melanie Klein postula que os seres humanos são movidos por um impulso inato de formar relações com objetos, que são representações internas de pessoas e partes do corpo. O principal foco da teoria está na interação dinâmica entre essas representações internas e as experiências externas, que moldam a estrutura psíquica do indivíduo desde a infância.

A ideia central é de que o ego primitivo do bebê lida com ansiedades inatas resultantes dos instintos de vida e morte. Para gerenciar essas ansiedades, o ego usa mecanismos de defesa, como a cisão, que divide o objeto (frequentemente o seio da mãe) em partes “boas” e “más”.

Klein descreveu duas posições, ou modos de funcionamento mental, que não são estágios de desenvolvimento fixos, mas sim padrões recorrentes ao longo da vida: posição esquizo-paranoide que predomina nos primeiros meses de vida. Caracteriza-se pela cisão dos objetos em inteiramente bons (associados ao prazer e gratificação) e inteiramente maus (associados à dor e frustração). A ansiedade predominante é a perseguição (paranoide), o medo de que os objetos maus destruam o ego. O objetivo nesta fase é proteger o objeto idealizado bom dos objetos maus persecutórios.

A posição depressiva, surge por volta da metade do primeiro ano, quando o bebê começa a integrar as partes boas e más do objeto em um objeto total (a mãe inteira). Isso leva a uma importante mudança na ansiedade: o medo de perseguição é substituído pela culpa e pelo medo de ter destruído o objeto amado com impulsos agressivos. Surge a capacidade de preocupação pelo outro (ambivalência) e o desejo de reparar o dano causado, o que é fundamental para o desenvolvimento da empatia e da capacidade de amar. A teoria de Klein enfatiza a importância das fantasias inconscientes e das relações objetais internas na formação da personalidade e na forma como o indivíduo se relaciona com o mundo exterior.

O capítulo 39 do livro “Fundamentos Psicanalíticos” de David E. Zimerman, intitulado “Psicanálise com Crianças e Adolescentes”, aborda as particularidades e adaptações da técnica psicanalítica para essas faixas etárias.  O autor enfatiza que a psicanálise com crianças e adolescentes não pode seguir o modelo clássico de adultos (uso do divã, associação livre verbal irrestrita), pois a capacidade de verbalização e abstração é diferente. O brincar e os jogos são introduzidos como a principal forma de expressão e comunicação da criança, substituindo a associação livre. O psicanalista deve ser capaz de interpretar simbolicamente essas atividades lúdicas.

Diferente da postura mais neutra e passiva com adultos, o analista de crianças e adolescentes assume um papel mais ativo, participando do brincar e fazendo intervenções mais diretas e pedagógicas quando necessário.

Vale ressaltar que a análise com crianças e adolescentes requer, fundamentalmente, a colaboração e o envolvimento dos pais ou responsáveis. O capítulo discute a importância das entrevistas com os pais e como a dinâmica familiar impacta o processo analítico.

O autor aborda como as diferentes fases do desenvolvimento infantil e da adolescência (aspectos cognitivos, emocionais, sociais) influenciam a abordagem clínica e os tipos de conflitos apresentados.

Melanie Klein representa um marco fundamental na psicanálise infantil com a técnica do brincar, funcionando como a principal ferramenta para acessar o inconsciente da criança. Diferente da psicanálise tradicional com adultos, que se baseia na fala e na associação livre, Klein percebeu que o brincar é a linguagem natural da criança, o equivalente funcional da fala para ela. Através dessa atividade, a criança expressa seus desejos, angústias, fantasias e conflitos internos, especialmente aqueles relacionados às suas relações objetais primitivas.

Na prática clínica, a técnica envolve a disponibilização de uma variedade de brinquedos simples, como bonecos, blocos, carrinhos, lápis de cor e papel, em um ambiente seguro e previsível. O analista observa atentamente como a criança escolhe, manipula e organiza esses objetos, bem como a sequência e a dinâmica das suas brincadeiras. Cada objeto e ação adquire um significado simbólico profundo: um boneco pode representar um dos pais ou um irmão; a agressividade dirigida a um brinquedo pode simbolizar sentimentos de inveja ou raiva; e a organização ou destruição dos objetos reflete a dinâmica interna das suas pulsões de vida e morte.

O papel do analista é interpretar o simbolismo contido no brincar, de forma análoga à interpretação de sonhos ou associações livres em adultos. O terapeuta não participa ativamente da brincadeira, mas a utiliza como um campo de observação privilegiado para compreender as ansiedades da criança, como a ansiedade de separação, a culpa e o medo de retaliação. A interpretação analítica, comunicada de forma sensível e em linguagem acessível à criança, visa ajudar o paciente a elaborar e integrar essas emoções, permitindo uma maior compreensão de si mesmo e a reconfiguração de suas relações objetais, o que leva ao alívio sintomático e ao desenvolvimento psíquico. Em essência, a técnica do brincar de Klein é um método de comunicação e interpretação simbólica que abre uma janela para o mundo interno da criança.

 

CONCLUSÃO:

Segundo a abordagem de Melanie Klein, o psicanalista trabalha com crianças e adolescentes utilizando a técnica do brincar como a via principal de acesso ao inconsciente, de forma análoga à associação livre na análise de adultos. O brincar é considerado a linguagem simbólica através da qual a criança expressa suas fantasias, desejos e experiências emocionais, incluindo angústias primitivas, medos e conflitos internos.

O papel do analista é observar e interpretar minuciosamente a dinâmica do brincar, os elementos do jogo e suas associações, para compreender o conteúdo latente e a vida instintual primitiva do paciente. A interpretação é focada na transferência, que, segundo Klein, manifesta-se de forma imediata e espontânea nas sessões. O analista interpreta tanto a transferência positiva quanto a negativa desde o início, sem assumir um papel de educador, mas sim de facilitador do processo analítico.

A prática clínica kleiniana enfatiza a importância de o analista ajudar a criança ou adolescente a integrar suas experiências emocionais, transitando da posição esquizoparanoide (caracterizada pela cisão de objetos em “bons” e “maus”) para a posição depressiva (onde há uma visão mais integrada e a capacidade de experimentar culpa e preocupação com o objeto total). Ao interpretar as angústias e mecanismos de defesa primitivos (como a cisão e a projeção) expressos no brincar, o psicanalista permite que o ego imaturo do paciente se fortaleça e organize, promovendo o amadurecimento emocional.

Dessa forma, o psicanalista atua como um continente para as projeções do paciente, ajudando a transformar elementos “maus” em “bons” através do acolhimento e da interpretação, o que enriquece o mundo psíquico do jovem e permite a elaboração de conflitos, contribuindo para a resolução de patologias.

 

 

REFERÊNCIAS:

KLEIN, Melanie. A psicanálise de crianças. Tradução de Liana Pinto Chaves. Coedição de Elias M. da Rocha Barros. São Paulo: Imago, 1981.

KLEIN, Melanie. Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991. KLEIN, Melanie. Narrativa da análise de uma criança: o procedimento da psicanálise de crianças tal como observado no tratamento de um menino de dez anos. Tradução de Claudia Starzynky Bacchi. In: ___. Edição Brasileira das Obras Completas de Melanie Klein. Volume IV. Rio de Janeiro: Imago, 2006. (Obra original publicada em 1961).

ZIMERMAN, D. E. Fundamentos Psicanalíticos: Teoria, técnica e clínica. Porto Alegre: Artmed, 1999.

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