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REFLEXÃO SOBRE O FILME: PRECISAMOS FALAR SOBRE
KELVIN” NA VISÃO DA PSICANÁLISE WINNICOTTIANA

Donald Woods Winnicott

Fernanda Faria Ribeiro de Souza – Terapeuta Integrativa e psicanalista

“O primeiro espelho da criatura humana é o rosto da mãe: A sua expressão, o seu olhar,
a sua voz. […] E como se o bebe pensasse: Olho e sou visto, logo, existo!”
Winnicott

INTRODUÇÃO
A falha na função materna impacta diretamente o desenvolvimento do narcisismo de Kevin.
Para a psicanálise, o narcisismo é uma fase normal e necessária para a estruturação do eu. No
entanto, a carência afetiva de Kevin o leva a um narcisismo patológico ou até mesmo a um
“narcisismo de morte”, no qual a libido (energia psíquica) não consegue se voltar para objetos
externos de forma saudável.
“Precisamos Falar Sobre Kevin” (no original, We Need to Talk About Kevin) é um drama
psicológico que aborda a difícil e complexa relação entre uma mãe e seu filho, que exibe
comportamentos perturbadores e, eventualmente, comete um massacre escolar.
O enredo principal gira em torno de Eva (interpretada por Tilda Swinton), que reflete sobre a
vida de seu filho, Kevin (interpretado por Ezra Miller), desde o nascimento até a adolescência,
em uma narrativa não linear que alterna entre passado e presente.

O filme explora a dificuldade de Eva em estabelecer um
vínculo afetivo com Kevin, que desde bebê demonstra
uma rejeição incomum à mãe. Kevin exibe características
de psicopatia, sendo manipulador, cruel e desprovido de
culpa desde a infância, o que desafia a compreensão dos
pais e do espectador sobre a origem de tal comportamento (natureza versus criação).
Uma questão central é a culpa de Eva, ela questiona se sua frieza inicial ou sua dificuldade em
maternar contribuíram para a “monstruosidade” do filho, ou se Kevin já nasceu com essa
predisposição. O clímax do filme é o massacre que Kevin comete em sua escola, matando
colegas e funcionários, após assassinar o próprio pai e a irmã mais nova em casa, usando um
arco e flecha. Após a tragédia, Eva vive isolada, enfrentando o julgamento e a hostilidade da
comunidade, que a vê como a mãe do monstro.

Em suma, o filme é um estudo de personagem intenso e perturbador que mergulha na psique
humana e nas dinâmicas familiares disfuncionais, deixando muitas perguntas sobre a origem
do mal e a responsabilidade parental.
DESENVOLVIMENTO:
Sob a ótica da psicanálise “Precisamos Falar Sobre Kevin” é um estudo profundo e perturbador
sobre a constituição psíquica falha, a ambivalência materna e a manifestação da pulsão de
morte. O filme de Lynne Ramsay, baseado no livro de Lionel Shriver, oferece um campo fértil
para a análise do desenvolvimento emocional e das raízes da psicopatia.
A psicanálise, especialmente a partir das teorias de D.W. Winnicott, enfatiza a importância
crucial da relação inicial entre mãe e bebê para a formação do psiquismo. Winnicott fala sobre
a “mãe suficientemente boa” e o “ambiente facilitador”, essenciais para que o bebê integre sua
personalidade e desenvolva um self saudável.
No filme, Eva (a mãe) demonstra, desde a gestação, uma
profunda ambivalência e, por vezes, rejeição ativa à maternidade
e ao próprio Kevin. Longe de um ambiente facilitador, Kevin
encontra em Eva um “vazio afetivo” e um ódio latente, que ele
capta e internaliza. A falta de um acolhimento genuíno e de um
“espelho” emocional adequado impede a integração da personalidade de Kevin, gerando um
imenso sofrimento psíquico.
A falha na função materna impacta diretamente o desenvolvimento do narcisismo de Kevin.
Para a psicanálise, o narcisismo é uma fase normal e necessária para a estruturação do eu. No
entanto, a carência afetiva de Kevin o leva a um narcisismo patológico ou até mesmo a um
“narcisismo de morte”, no qual a libido (energia psíquica) não consegue se voltar para objetos
externos de forma saudável.
Kevin não consegue simbolizar suas emoções ou estabelecer vínculos empáticos. Ele parece
agir a partir de uma posição de ressentimento, usando o mundo (e sua família) como palco para
expressar sua dor e garantir, paradoxalmente, a atenção constante da mãe, mesmo que através
do ódio.
O comportamento destrutivo de Kevin — desde a infância (as fraldas, a destruição do quarto, a
cegueira da irmã) até o massacre final — pode ser interpretado como a manifestação pura e
desregulada da pulsão de morte (Thanatos). Em um desenvolvimento psíquico saudável, a
pulsão de morte é atenuada e equilibrada pela pulsão de vida (Eros), sendo direcionada e
sublimada em atividades socialmente aceitáveis.
No caso de Kevin, a falha nas relações objetais primárias e a ausência de um “superego”
(consciência moral) bem formado permitem que essa energia destrutiva atue de forma bruta,
resultando em características de uma personalidade antissocial ou psicopática, com total falta
de empatia e remorso.
Conclusão
“Precisamos Falar Sobre Kevin” expõe as consequências devastadoras do que a psicanálise
entende como falhas precoces e profundas na constituição do sujeito. O filme sugere que a
“monstruosidade” de Kevin não é inata, mas o resultado trágico de uma interação complexa
onde o ódio materno não elaborado encontrou um terreno fértil em uma personalidade em
formação, culminando na encenação brutal de um sofrimento que não pôde ser verbalizado. A
pergunta final de Eva (“Por que você fez isso?”) e a resposta de Kevin (“Eu achava que sabia.
Agora, não tenho mais certeza”) ecoam o mistério da condição humana e a complexidade do
inconsciente.
Para finalizar deixamos aqui duas reflexões com base no filme, uma sobre a “Maternidade Não
Idealizada”, ou seja, a noção de que o amor materno é instintivo e automático. A protagonista,
Eva, nunca desejou verdadeiramente ser mãe e, após o nascimento de Kevin, ela desenvolve
uma aversão e um distanciamento em relação a ele, o que é um tabu social. Isso reflete a pressão
social para que as mulheres queiram engravidar e a culpa que sentem se não se encaixam nesse
molde. E outra sobre: “natureza versus criação” (Innato ou Adquirido?): a ideia é se Kevin é
mau por natureza (psicopatia, como sugerido em algumas análises) ou se o seu comportamento
antissocial e violento é um produto da criação e do ambiente familiar disfuncional. A falta de
atendimento às suas necessidades emocionais desde cedo é um fator determinante.
E ainda, o filme utiliza a história extrema de Kevin para nos fazer refletir sobre a complexidade
das relações familiares, os desafios reais da paternidade/maternidade e o impacto profundo que
o ambiente emocional e a qualidade do vínculo afetivo têm no desenvolvimento de uma criança.
REFERÊNCIAS:
WINNICOTT, D. W. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do
desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983.
WINNICOTT, D. W. A criança e o seu mundo. 6 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
WINNICOTT, D. W. A família e o desenvolvimento individual. São Paulo: Martins Fontes,
1997.
WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago editora LTDA, 1975.
WINNICOTT, D. W. Tudo começa em casa. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
ZIMERMAN, D. E. Fundamentos Psicanalíticos: Teoria, técnica e clínica. Porto Alegre:
Artmed, 1999.
https://psicologiadoimaginario.wordpress.com/2016/03/06/estagios-do-amadurecimento-para
winnicott/

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