Posted by:

Comments:

Post Date:

INTRODUÇÃO

Neurose, psicose e perversão são estruturas psíquicas descritas na psicanálise. A neurose envolve sofrimento e sintomas (como ansiedade e compulsões) resultantes de conflitos inconscientes. A psicose é uma perda de contato com a realidade, manifestada por delírios e alucinações. A perversão envolve a negação da lei e a busca de prazer por desvios pulsionais, muitas vezes negando a castração para criar um objeto de satisfação.

A neurose se caracteriza por conflitos psíquicos inconscientes, sofrimento, ansiedade e sintomas como fobias e compulsões. O neurótico não rejeita a realidade, mas lida com ela através do recalque, gerando sintomas para expressar o desejo reprimido. Uma pessoa que, mesmo reconhecendo a realidade, sente uma angústia intensa ao se aproximar de um objeto socialmente aceito.

Na estrutura da Psicose ocorre a perda de contato com a realidade, com sintomas como delírios (crenças falsas) e alucinações (percepções sensoriais sem estímulo externo). A realidade é recusada e substituída por uma nova realidade, onde o indivíduo tem uma relação mais primitiva com o mundo e com a linguagem simbólica. Alguém que acredita firmemente ter um propósito divino ou que escuta vozes que ninguém mais ouve.

Já na perversão, se caracteriza pelo desvio do desejo sexual “normal”, negação da lei (simbolizada pelo pai ou sociedade) e busca de satisfação através de objetos ou atos específicos. O perverso reconhece a lei, mas a infringe de forma estratégica, escolhendo se satisfazer fora das normas sociais. Alguém que, conscientemente, se satisfaz prazer usando objetos ou atos que violam as regras sociais, como um fetiche.

É importante notar que esses conceitos são complexos e a psicanálise descreve a relação entre eles como um contínuo, onde todos nós possuímos aspectos de cada estrutura. O desequilíbrio ou excesso de uma característica pode gerar sofrimento psicológico, mas o diagnóstico e a terapêutica dependem de uma análise clínica detalhada.

 

DESENVOLVIMENTO:

A função de um psicanalista que é a investigação do inconsciente. O acesso ao inconsciente e seus simbolismos pode ocorrer por algumas vias de acesso. A análise de um filme pode ajudar o analista na sua clínica de diversas maneiras, principalmente ao aprimorar sua compreensão da subjetividade humana, desenvolver a empatia e fornecer uma ferramenta poderosa para a psicoeducação e a discussão de temas complexos até mesmo com seus pacientes.

No filme “Cisne Negro”, as estruturas de neurose, psicose e perversão não são distribuídas uniformemente entre personagens diferentes, mas sim exploradas predominantemente na personagem principal, Nina Sayers, culminando em uma manifestação de psicose.

A jornada de Nina ilustra uma transição dramática de uma estrutura neurótica para um estado psicótico. No início do filme, Nina apresenta traços fortes de neurose, especificamente uma neurose obsessiva. Ela é extremamente disciplinada, perfeccionista e reprimida, vivendo sob a influência controladora da mãe. Seu conflito reside no recalque de seus desejos e impulsos (especialmente sexuais e agressivos) para se adequar a uma imagem idealizada de pureza e perfeição (“Cisne Branco”). A angústia e a culpa são mecanismos de defesa presentes, mas a realidade externa é mantida (ela sabe que precisa ensaiar, que há uma competição, etc.).

O “Cisne Negro” representa seu lado sombrio, inconsciente e reprimido, que ela luta para aceitar e expressar. A pressão para incorporar o Cisne Negro, que exige a liberação de seu lado mais sensual e agressivo, desencadeia a eclosão de um surto psicótico. A psicose é marcada pela ruptura com a realidade (mecanismo de recusa da realidade, ou Verleugnung em alguns contextos) e pela substituição por delírios e alucinações.

Podemos notar e se faz interessante que as figuras femininas são complicadas para Nina: Erica, Beth, Lily. Parece não haver nenhuma mediação simbólica que colocasse um ponto de basta nestas relações. Nina está identificada imaginariamente com Erica, sua mãe, ao se colocar em posição de atender às demandas maternas de realizar seus ideais frustrados. É na posição de objeto do Outro que Nina parece responder a tais demandas. Sua mãe, Erica aparece o tempo todo como bastante caprichosa e controladora, exigente, sempre presente, nenhum ponto de falta ou de seu desejo se colocam no filme. O que aparece vindo desta mãe é o puro imperativo, relativo a um gozo materno. Uma mãe que sabe de tudo e controla tudo na vida da filha. Uma relação especular sem uma mediação paterna que pudesse colocar limites no Outro caprichoso que impõe exigências constantes. O pai de Nina nem mesmo é citado no filme, índice de uma foraclusão.

Além da mãe, as figuras de Beth e Lily também nos apontam para identificações imaginárias de Nina. Ela vê Lily como a mulher que quer seu lugar, em uma clara relação especular, no eixo a – a’, que podemos localizar como o eixo da relação imaginária, elaborado por Lacan (1957-58/1998) no esquema L da Questão preliminar. Imediatamente ao localizar Lily como rival, se identifica com Beth, da qual ela própria haveria tomado o lugar, sendo também uma posição de rivalidade. No papel de bailarina principal, na subjetividade de Nina, dançam essas quatro mulheres, sem que haja para ela alguma mediação que possibilitasse outro tipo de interpretação que não a da rivalidade imaginária.

Nina começa a ter visões (as penas crescendo, a rival Lily com o mesmo rosto que ela, a alucinação do assassinato de Lily), mistura o que é real e o que é imaginário, e seu senso de identidade se desintegra. O ambiente de alta pressão e a relação sufocante com a mãe exacerbam essa condição, levando a uma desorganização completa do seu psiquismo no clímax do filme.

A estrutura da perversão não se manifesta de forma proeminente em Nina nem em outros personagens principais de maneira que caracterize sua estrutura psíquica central, embora certos traços ou comportamentos possam ser interpretados simbolicamente.

A perversão na psicanálise está ligada a um mecanismo de “desmentido” da castração (ou da lei) e a uma busca por satisfação através de rituais ou objetos específicos, sem a culpa ou a angústia avassaladora do neurótico, nem a ruptura psicótica total com a realidade.

O diretor de balé, Thomas Leroy, poderia, talvez, ser superficialmente analisado por uma ótica de manipulação que beira a perversão no sentido social (não clínico), ao empurrar Nina para limites destrutivos em busca de “arte”, mas sua estrutura clínica não é o foco do filme.

A personagem Lily, a rival de Nina, representa o oposto de Nina (espontânea, sensual), o que gera inveja e repressão em Nina, mas ela não exibe uma estrutura perversa clinicamente definida. Ela é a representação do que Nina reprime.

O filme é um estudo profundo da psicose na personagem de Nina, que sucumbe à pressão de um ideal de perfeição e não consegue integrar os aspectos reprimidos de sua personalidade, culminando em uma trágica ruptura com a realidade.

 

CONCLUSÃO:

A função do psicanalista, centrada na investigação do inconsciente e seus simbolismos, pode ser enriquecida pela análise de filmes. Essa prática aprimora a compreensão da subjetividade humana, desenvolve a empatia e oferece uma ferramenta poderosa para a psicoeducação e a discussão de temas complexos na clínica. O filme “Cisne Negro” serve como um estudo de caso notável, explorando as estruturas de neurose e psicose predominantemente na personagem principal, Nina Sayers.

A jornada de Nina ilustra uma transição dramática da neurose obsessiva para a psicose. Inicialmente neurótica, ela é disciplinada, perfeccionista e reprimida, vivendo sob a influência controladora da mãe. Seu conflito reside no recalque de seus desejos e impulsos (sexuais e agressivos) para encarnar o ideal de pureza do “Cisne Branco”, mantendo a realidade externa. O “Cisne Negro” representa seu lado sombrio e reprimido, e a pressão para liberá-lo desencadeia um surto psicótico. A psicose é marcada pela ruptura com a realidade, delírios e alucinações.

Ao analisar personagens de um filme o estudante de psicanálise e/ou analista podem identificar padrões e levantar hipóteses clinicas. A análise fílmica permite ao analista observar comportamentos, dinâmicas de relacionamento e mecanismos de defesa projetados nos personagens, funcionando como “casos clínicos” fictícios. Isso auxilia no desenvolvimento de técnicas de observação, interpretação e formulação de hipóteses sobre casos reais. O cinema, assim como os sonhos, utiliza simbolismos e metáforas que podem ser interpretados à luz da teoria psicanalítica. A prática de decifrar esses elementos na tela aprimora a capacidade do analista de identificar e trabalhar com conteúdo inconscientes e fantasias dos pacientes.

Quando Freud diz: “A incapacidade de tolerar a ambiguidade é a raiz de todas as neuroses” ele sugere que a dificuldade humana fundamental não reside em conflitos específicos, mas na rigidez de não conseguir aceitar a coexistência de ideias, sentimentos ou realidades contraditórias.

Em essência, a vida é complexa e cheia de paradoxos: uma pessoa pode ter qualidades admiráveis e defeitos graves, uma situação pode ser ao mesmo tempo gratificante e desafiadora, e sentimentos como amor e ódio podem coexistir em relação à mesma pessoa. A tolerância à ambiguidade é a capacidade de suportar esse desconforto sem precisar de uma resolução imediata ou simplista. A raiz da neurose, sob essa ótica, é a busca obsessiva por clareza, certeza e consistência absolutas, o que leva a uma visão de mundo em preto e branco. Para evitar a ansiedade gerada pelo incerto ou pelo contraditório, o indivíduo neurótico pode empregar mecanismos de defesa excessivamente rígidos, como a negação, a repressão ou o pensamento dicotômico. Essa rigidez psíquica o impede de navegar a complexidade do mundo de forma flexível e adaptativa, aprisionando-o em padrões repetitivos de conflito e sofrimento, o que a psicanálise e a psicologia buscam abordar.

 

REFERÊNCIAS:

FREUD, S. (1923). “Neurose e Psicose”. In Obras Completas (Edição Standard Brasileira).

FREUD, S. (1915). “Neurose, psicose, perversão”. Publicado em Obras Incompletas de Sigmund Freud, Vol. 7, Autêntica.

LACAN, J. (1981). “O seminário, livro III: As psicoses”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. (Originalmente publicado em 1955-1956).

ZIMERMAN, D. E. Fundamentos Psicanalíticos: Teoria, técnica e clínica. Porto Alegre: Artmed, 1999.

CÔRTES, Camila Alvarenga. Revista Mal Estar e Subjetividade versão impressa ISSN 1518-6148 Rev. Mal-Estar Subj. vol.11 no.3 Fortaleza 2011 Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1518-61482011001300015 Acesso em: 1 nov. 2025.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *